"A última música a entrar no álbum foi ‘para Pedro’. Quando ela surgiu, entendi que precisava encerrar a jornada conversando com o meu eu criança."
O primeiro som que ecoa em EMOCIONAL é o registro cru e íntimo do aniversário de um ano de Pedro. O último, uma carta ao menino que sopra as velas naquela gravação. Entre esses dois extremos, 14 faixas constroem um arco narrativo que é, ao mesmo tempo, confissão e manifesto. É um disco que não apenas conta uma história, mas também se recusa a esconder as cicatrizes que a moldaram.
DO EP DESPRETENSIOSO AO ROTEIRO DE UM FILME
Pedro não entrou no estúdio com um plano grandioso. A ideia inicial era gravar algumas músicas e, quem sabe, lançar um EP. Mas, à medida que as sessões avançavam, algo maior começou a se formar.
“Foi no estúdio que percebi que havia uma história se formando. A maioria das músicas já existia, mas foi ali que elas passaram a fazer sentido juntas e nessa ordem específica.”
Inicialmente, o álbum abriria com “27” e fecharia com “SOBREVIVI”. Funcionava. Mas quando “para Pedro” nasceu, tudo mudou. A conversa com o eu criança, somada ao áudio de parabéns e à voz infantil, deu ao disco um fechamento circular — quase uma cena pós-créditos.
Essa estrutura, que lembra a montagem de um filme, não foi planejada, mas se impôs. O resultado é um álbum que começa no “marco zero” e retorna a ele, transformado.
O CAOS QUE DANÇA: PLURALIDADE SONORA COMO ESPELHO EMOCIONAL
O release define o som como “punk rock moderno, pop e dançante”. Mas, por trás dessa energia, há letras que mergulham em depressão, ansiedade, luto, saudade, tesão, otimismo e empatia.
“A música é minha forma de extravasar todos esses sentimentos, cada um à sua maneira. Com um álbum tão diverso, o som também precisava acompanhar essa pluralidade.”
Essa escolha estética dialoga com uma tradição de artistas que usam o contraste como ferramenta narrativa — de Pitty a Lady Gaga, de Yungblud a Olivia Rodrigo. Ao lado do produtor Lucas Marmitt, Pedro construiu um universo sonoro que ora abraça o peso das palavras, ora oferece um respiro. É catarse e bote salva-vidas ao mesmo tempo — um reflexo da energia caótica de sentir tudo de uma vez.
URGÊNCIA DOS 27: ENTRE O MITO E A SOBREVIVÊNCIA
Entre as faixas, “27” é um ponto de densidade máxima. A referência ao “Clube dos 27”¹ carrega um peso simbólico para músicos. Para Pedro, coincidiu com um período de incerteza.
“Hoje tenho 29 anos e acabei de lançar meu primeiro álbum. Apesar de mais de dez anos na música, sinto que acabei de começar. A pandemia mexeu muito com minha percepção de tempo. Entrei nela com vinte e poucos e saí com vinte e tantos, tendo perdido anos preciosos da juventude.”
Essa sensação de urgência — de que não há tempo a perder — atravessa todo o disco. É a pressa de viver, criar e deixar algo no mundo antes que seja tarde.
SENTIR COMO RESISTÊNCIA POLÍTICA
Music On The Road - A faixa-título, 'EMOCIONAL', é um verdadeiro manifesto onde você recusa qualquer tentativa de ser menos do que sente. Em uma sociedade que muitas vezes valoriza a contenção, especialmente a masculina, lançar um álbum com este nome e este conceito é uma declaração forte. Você enxerga esse ato de 'transbordar sem controle' não apenas como uma característica pessoal, mas como uma forma de resistência, quase um ato político? Como essa 'recusa a fingir', citada no release, define sua identidade como artista hoje e o que você espera que ela provoque em quem te escuta?
“Com certeza. Vivemos na era da aparência, das redes sociais, do conteúdo rápido, palatável e muitas vezes vazio. Estamos cada vez mais dispersos e, honestamente, insensíveis ao que acontece ao nosso redor e dentro da gente. Para mim, falar abertamente sobre tantos sentimentos de forma honesta é libertador. Eu acredito que a gente precisa conhecer os próprios demônios em vez de fingir que eles não existem. A música tem esse papel para mim: é onde consigo dar vazão e exorcizar aquilo que não consigo expressar de outra forma. E, de certa forma, acho que isso também ajuda quem me escuta a fazer o mesmo. Não se trata de se afundar nos problemas, mas de reconhecê-los e encontrar as ferramentas para lidar com eles.”
Para Pedro, transbordar é um ato político. É recusar a anestesia emocional que o mundo tenta impor. É assumir que sentir — muito, intensamente — é uma forma de existir com verdade.
O LABORATÓRIO DE EMOÇÕES: BASTIDORES DA PRODUÇÃO
A parceria com Lucas Marmitt, iniciada no hit “EU QUERO ME EXPLODIR”, foi essencial para transformar palavras em atmosferas.
“O preciosismo está nos detalhes: a ponte densa e caótica de ‘27’, o riff de voz de ‘EU QUERO ME EXPLODIR’, o swing da percussão em ‘PQP!!!’, as nuances da batida de ‘se eu te disser’ e a explosão de ‘para Pedro’. Tudo foi pensado e revisitado para que EMOCIONAL chegasse onde chegou.”
Cada faixa é um experimento emocional, onde peso e delicadeza se equilibram como luz e sombra. O estúdio funcionou como um laboratório, onde cada elemento sonoro foi testado, ajustado e lapidado até encontrar o ponto exato entre intensidade e sensibilidade.