Iza nunca foi uma artista de caminhos previsíveis. Desde sua estreia, a cantora constrói uma trajetória que se equilibra entre potência vocal, sensibilidade lírica e uma consciência rara de sua identidade artística. Agora, em um novo e ousado capítulo, a artista dá voz ao reggae com os singles “Caos e Sal” e “Tão Bonito”, que estão disponíveis nas plataformas digitais, acompanhados de visualizers que expandem a experiência musical para uma dimensão imagética e simbólica.
A música como expansão e pertencimento
A incursão de Iza pelo reggae não se apresenta como ruptura, mas como uma extensão natural de sua obra, já permeada pela multiplicidade de referências sonoras. A cantora reconhece no gênero não apenas uma estética musical, mas também um espaço de diálogo político e espiritual. “Sempre desejei explorar o reggae, um estilo que considero extremamente democrático por suas diversas vertentes, do R&B ao rap, do tradicional ao dancehall. Além disso, a mensagem de paz, amor, liberdade e consciência política defendida pelos precursores do gênero ressoa muito comigo”, reflete.
Mais do que um flerte estilístico, os lançamentos marcam a entrada de IZA em um campo musical que dialoga profundamente com sua ancestralidade e visão de mundo.
O elo com Kemet e a estética afro-diaspórica
Os dois singles nascem de uma pesquisa estética e histórica que conecta Kemet, nome original do Egito Antigo — “terra preta” —, à sofisticação de civilizações africanas e às heranças culturais do Maranhão. Nesse processo, a cantora constrói uma narrativa que não apenas resgata símbolos, mas também revaloriza a autoestima e a pertença de um povo que deixou legados fundadores da humanidade.
Visualmente, os registros de “Caos e Sal” e “Tão Bonito” materializam esse mergulho com referências às deusas egípcias Bastet, Nefertiti e Cleópatra, aos faraós e às esfinges, em paralelo com os Lençóis Maranhenses. A estética aposta em uma paleta de cores inspirada nos pigmentos ancestrais egípcios, tradicionalmente ligados à realeza e à espiritualidade, além de incorporar símbolos Adinkra, como o Sankofa, que remetem a saberes africanos milenares.
Trata-se de uma imersão que une o gráfico e o surreal, construindo uma atmosfera de significados que reforça a ideia de que a música de IZA é, antes de tudo, expressão identitária.
Caos e Sal: um hino de resistência
Fruto da parceria entre IZA, Rafa Chagas, Nave e Fejuca, “Caos e Sal” é marcada por grooves fortes, pulsação rítmica e letras que equilibram crítica social e exaltação da ancestralidade. “Bem que minha vó falou / Que a força dos ancestrais / Nos protege da dor”, canta IZA, em versos que evocam proteção espiritual ao mesmo tempo em que confrontam estruturas de poder.
A canção é também um reencontro: “’Caos e Sal’ nasceu há muitos anos, em uma composição inicial de Rafa Chagas, um artista incrível de quem eu sou muito fã. Ele me deu esse presente e, quando comecei a pensar em fazer este álbum de reggae, essa música foi a primeira que veio ao meu coração”, relembra.
Tão Bonito: entre o reggae romântico e o afrobeat
Enquanto “Caos e Sal” dialoga com a resistência, “Tão Bonito” abre espaço para o afeto e a leveza. Produzida em parceria com Nave e Fejuca, a faixa se estrutura como um reggae romântico, mas expande fronteiras ao dialogar com o afrobeat e o R&B.
Aqui, IZA se revela em sua interpretação mais íntima, explorando nuances vocais que transitam entre sensualidade e confiança. O resultado é uma canção que convida à contemplação, ao mesmo tempo em que reafirma a versatilidade de uma artista capaz de transitar por diferentes linguagens musicais sem perder sua identidade.
“Eu já trabalhei com Nave antes e já tinha trabalhado com Fejuca em shows, mas é a primeira vez que nós estamos produzindo um álbum juntos. Eu acho que ela compõe bem a história de reggae e afrobeat que eu quero contar nesse álbum”, explica.
IZA e a pluralidade de vozes
Com esses lançamentos, IZA não apenas se insere em um novo gênero, mas reafirma sua posição como uma das artistas mais criativas e inquietas do Brasil. Sua obra dialoga com o pulso das grandes cidades, mas também com raízes ancestrais, transitando entre espiritualidade, crítica social, afeto e sensualidade.
Em “Caos e Sal” e “Tão Bonito”, a cantora entrega não só canções, mas capítulos de uma narrativa maior: a de uma artista que sabe de onde veio, compreende sua ancestralidade e entende que sua música pode — e deve — ser um instrumento de transformação.
O reggae, para IZA, não é apenas estilo. É espaço de voz, resistência e expansão.
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