São Paulo se prepara para receber, no dia 20 de dezembro, um dos espetáculos mais contundentes e simbólicos do calendário musical brasileiro de 2025. Urias sobe ao palco da Áudio, na Barra Funda, para apresentar ao vivo CARRANCA, álbum que marca uma inflexão decisiva em sua trajetória e consolida uma obra de forte densidade estética, política e espiritual. A noite contará com participações especiais de Criolo, Don L e Giovani Cidreira, além de Marcinha do Corintho, que assina o ato de abertura e ocupa papel central na construção narrativa do projeto.
Concebido como um trabalho essencialmente conceitual, CARRANCA representa um deslocamento artístico profundo na discografia de Urias. O álbum aprofunda temas ligados à ancestralidade negra, religiosidade, resistência e brasilidade, articulando essas camadas por meio de uma sonoridade que transita entre o experimental contemporâneo e referências ritualísticas. No palco, essas dimensões ganham corpo em um espetáculo pensado como experiência sensorial completa, em que música, imagem e discurso operam de forma integrada.
“Esse show vai trazer uma experiência visual inovadora, que reflete o álbum sem deixar de lado a essência das minhas apresentações. Agora estamos dando um passo à frente; a estreia de CARRANCA adiciona uma nova camada”, afirma Urias.
O repertório reúne as faixas centrais do disco e evidencia seu caráter colaborativo. Criolo divide o palco em “Deus”, Don L participa de “Paciência” e Giovani Cidreira surge em “Herança”, reforçando a pluralidade estética e discursiva do álbum. Já Marcinha do Corintho ultrapassa a função de participação especial: sua voz conduz os interlúdios que estruturam a narrativa do trabalho, funcionando como fio condutor conceitual da obra.
Narrativa, imagem e travessia simbólica
Com 14 faixas, incluindo três interlúdios, CARRANCA se organiza como uma travessia simbólica. Os textos narrados por Marcinha do Corintho operam como marcos reflexivos, abordando temas como liberdade, revolta, vingança e retorno à origem. A introdução apresenta a ideia de uma liberdade ilusória — vendida, mas inacessível. No segundo interlúdio, a narrativa se aprofunda na raiva e na vingança como respostas possíveis à negação dessa liberdade. O encerramento costura a obra ao apontar um retorno simbólico à Etiópia, à Mãe Terra, estabelecendo a liberdade como experiência plena e ancestral.
“Esses interlúdios se conectam diretamente com o tema central do disco. Eles funcionam como pontos de respiração e reflexão, mas também como guias para entender a narrativa maior da obra”, explica Urias.
A dimensão visual é elemento indissociável de CARRANCA. A capa do álbum, assinada pelo artista plástico Isaac de Souza Sales, dialoga diretamente com o conceito afro-surrealista que atravessa o projeto. A partir de pesquisas sobre diáspora africana e ancestralidade, Isaac constrói imagens que ressignificam deuses antigos, criando novas referências entre o utópico e o distópico, sempre em diálogo com o presente.
Essa mesma linguagem se expande nos visuais do espetáculo, desenvolvidos sob a direção criativa de Ode, que propõe uma narrativa afro-surrealista atravessando épocas, territórios e corpos. As referências transitam entre figuras históricas como Josephine Baker e Sarah “Saartjie” Baartman, e divindades como Oxalá, Iemanjá, Iansã, Hórus e Ptah. “Eu chamo isso de transcorporeidade”, define Ode. “A autorrepresentação pode ser um caminho para a libertação das noções eurocêntricas e ocidentais de identidade.”
Rito contemporâneo e afirmação artística
Mais do que um show, a apresentação de CARRANCA na Áudio se anuncia como um rito contemporâneo, em que música, imagem e narrativa se articulam para provocar reflexão, celebrar a ancestralidade e afirmar identidades. Ao reunir diferentes vozes, linguagens e referências, Urias reafirma seu lugar como uma das artistas mais provocadoras, consistentes e relevantes da música brasileira atual.

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