Ao chegar a Belém pela primeira vez, os Ensaios da Anitta deixam de operar apenas como um evento de aquecimento para o Carnaval e passam a reivindicar outro estatuto: o de obra pop em permanente construção. A apresentação no Estádio do Mangueirão, em janeiro de 2026, evidencia a maturidade de um projeto que articula repertório, estética e estratégia de mercado para disputar espaço no imaginário do Carnaval brasileiro contemporâneo.
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| Crédito: Fred Othero |
Mais do que um show, os Ensaios se consolidam como um formato autoral, um produto que carrega a assinatura estética e simbólica de Anitta, mas que se sustenta pela capacidade de dialogar com a história da música popular brasileira.
OS ENSAIOS NA TRAJETÓRIA DE ANITTA
Desde as primeiras edições, os Ensaios funcionam como um laboratório artístico. No início, eram extensões do repertório autoral da cantora, ancoradas no funk e no pop. Com o passar dos anos, o projeto evoluiu junto com a própria carreira de Anitta, incorporando novos códigos visuais, parcerias e, sobretudo, uma relação mais direta com o Carnaval como linguagem musical.
Em 2026, essa relação atinge um ponto de síntese. O show em Belém não se limita a citar referências carnavalescas: ele reorganiza o espetáculo a partir delas.
O REPERTÓRIO COMO DISCURSO
A inclusão de clássicos do axé e do Carnaval, como “Faraó”, de Margareth Menezes, e “Céu da Boca”, de Ivete Sangalo, funciona como eixo narrativo do espetáculo. Longe de operar como nostalgia, o repertório estabelece uma linha direta entre a música pop contemporânea e a tradição dos grandes carnavais de trio elétrico.
Ao alternar esses momentos com hits próprios como “Avisa Lá”, “Sei Que Tu Me Odeia”, “Ai Papai” e “Combatchy”, Anitta constrói um show que se movimenta entre autoria e curadoria. O resultado é um equilíbrio raro: a artista reafirma sua trajetória sem centralizar completamente a experiência.
DO PALCO AO BLOCO
No Mangueirão, o espetáculo assume lógica de rua. O estádio deixa de funcionar como plateia passiva e passa a operar como bloco carnavalesco, com o público participando ativamente da condução emocional do show.
Essa escolha aproxima os Ensaios de uma tradição histórica do Carnaval brasileiro, na qual a performance não se sustenta apenas na figura do artista, mas na resposta coletiva. Para a Music On The Road, trata-se de um ponto-chave: Anitta entende que, no Carnaval, protagonismo se mede pela capacidade de conduzir massas, não apenas de performar para elas.
ESTÉTICA, IMAGEM E CONCEITO
O tema “Cosmos”, que atravessa a edição 2026, aparece como elemento estruturante do espetáculo. O figurino inspirado em Áries reforça a já conhecida fusão entre identidade pessoal e construção imagética, característica central da carreira da artista.
Diferentemente de edições anteriores, em que o conceito funcionava quase como moldura visual, aqui ele se integra à narrativa do show, ajudando a organizar ritmo, visual e discurso.
LEITURA DE INDÚSTRIA
Do ponto de vista da indústria musical, os Ensaios da Anitta representam um modelo híbrido entre show, turnê temática e evento de calendário. Ao expandir o projeto para o Norte do país, a artista amplia não apenas seu alcance geográfico, mas também seu capital simbólico.
Em um mercado saturado de festivais e eventos sazonais, os Ensaios se diferenciam por operar como marca autoral recorrente, algo próximo ao que grandes artistas internacionais constroem com residências e formatos exclusivos.
COMPARATIVO COM EDIÇÕES ANTERIORES
- Primeiras Edições: foco em repertório autoral e promoção de carreira
- Fase Intermediária: inserções pontuais do Carnaval como estética
- Edição 2026: Carnaval como linguagem estrutural do espetáculo
A apresentação em Belém marca a transição definitiva do projeto para um formato maduro, consciente de seu peso cultural.
Os Ensaios da Anitta chegam a 2026 como um dos projetos mais bem resolvidos da música pop brasileira. Em Belém, a artista demonstra que compreendeu algo essencial: no Carnaval, o que permanece não é apenas o hit, mas a experiência compartilhada.
Ao transformar o pré-Carnaval em obra pop de largo alcance, Anitta reafirma sua posição não apenas como estrela, mas como arquiteta de formatos dentro da indústria musical brasileira.
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CRÉDITOS
Foto: Fred Othero
Criação: Anitta, Daniel Ueda e Leo Borges
Desenvolvimento do Look: Michelly X
Bota: Lucas Regal
Produção de Moda: Hugo Machado, Isabella Ramos e Layse Araújo
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