Projeto com João Gomes, Mestrinho e Jota.pê propõe escuta, afeto e fricção entre palco e rua em Belo Horizonte
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Nascido como um encontro informal entre amigos, o Dominguinho carrega uma ideia quase anacrônica para os tempos atuais: a música como espaço de permanência, não de urgência. O projeto — que também se materializou em um audiovisual gravado no Sítio Histórico de Olinda — aposta na lentidão como escolha estética e política. Ao propor “domingos bem vividos” em um cenário regido por lançamentos semanais e métricas de engajamento, o trio desloca o centro da experiência musical do consumo para a escuta.
No palco, as trajetórias de João Gomes, Mestrinho e Jota.pê se cruzam sem hierarquia evidente. O forró e o piseiro, frequentemente associados à lógica do hit e da circulação massiva, aparecem aqui desidratados de espetáculo, filtrados por uma sonoridade acústica que expõe o gesto do toque e a materialidade do som. A sanfona de Mestrinho, os violões de aço de Jota.pê e a percussão de Gilú Amaral funcionam menos como suporte rítmico e mais como dispositivos narrativos, criando um espaço onde o silêncio também comunica.
O repertório reforça essa proposta de deslocamento. Ao alternar composições autorais, como “Flor”, inédita de Mestrinho, com releituras que tensionam a memória afetiva do público — caso de “Pontes Indestrutíveis”, da banda Charlie Brown Jr. —, o Dominguinho propõe uma escuta que exige atenção, não catarse imediata. Mesmo quando se aproxima de sucessos populares, como no medley entre “Mete Um Block Nele” e “Ela Tem”, o projeto opta por uma abordagem contida, que retira as canções do campo da euforia e as reinsere no da contemplação.
A presença dos blocos Pisa na Fulô e Chama o Síndico introduz um elemento de tensão produtiva ao projeto. Ao trazer para o palco forças diretamente ligadas ao carnaval de rua — à ocupação do espaço público, ao corpo coletivo e ao excesso —, o Dominguinho se permite o confronto entre dois impulsos aparentemente opostos: a escuta íntima e a celebração expansiva. Não se trata de síntese, mas de convivência. O bloco não dilui o projeto; ao contrário, expõe suas contradições e amplia seu campo de leitura.
Visualmente, a direção de Chico Kertész (Macaco Gordo) reforça essa escolha pela contenção. A estética evita o espetáculo grandioso e aposta em uma poética do gesto, do detalhe e da proximidade, coerente com a ideia de música como encontro — não como produto finalizado, mas como processo.
A passagem do Dominguinho por Belo Horizonte pode ser lida, assim, como um comentário sobre o próprio estado da música popular brasileira contemporânea. Em um momento em que o pré-carnaval se torna vitrine e arena, o projeto escolhe o risco da intimidade. E lembra que, antes da multidão e do trio elétrico, a festa também pode ser um espaço de pausa, escuta e presença.
SERVIÇO
📅 Data: 07 de Fevereiro de 2026 (Sábado)
📍 Local: Parque Ecológico da Pampulha
⏰ Abertura dos Portões: 13h
🕘 Encerramento: 22h
🚫 Classificação: 18 anos
🎟️ Ingressos: Lote Extra

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