Oficina de Música de Curitiba | Música de Brinquedo 2: Pato Fu e o gesto radical de devolver a música ao jogo

Subo nesse palco, minha alma cheira a talco como bumbum de bebê.” O verso, que poderia soar apenas como provocação poética, funciona em Música de Brinquedo 2 como uma chave conceitual. Não se trata de nostalgia gratuita nem de infantilização da linguagem musical, mas de uma operação estética precisa: despir a canção de seus excessos, reduzir sua escala e recolocá-la em estado de jogo.


Passados sete anos do primeiro Música de Brinquedo, o Pato Fu retorna ao projeto consciente de seu próprio peso histórico. O que antes parecia uma ideia improvável — reinterpretar clássicos da música brasileira e internacional com instrumentos de brinquedo — hoje se afirma como um corpo de obra. Música de Brinquedo 2 não é continuidade automática, tampouco repetição segura; é uma resposta crítica ao impacto que o próprio projeto causou.

O uso deliberado de saxofones de plástico, kazoos, pianinhos infantis e tecladinhos baratos não opera como gimmick cênico. Há uma escolha política embutida nesse gesto. Ao reduzir o aparato técnico, o grupo desloca a atenção do virtuosismo para a estrutura da canção. O brinquedo expõe a espinha dorsal da música — melodia, ritmo, intenção — e confronta a lógica inflacionada do pop contemporâneo, cada vez mais dependente de camadas, efeitos e grandiloquência.

O repertório, cuidadosamente curado, escapa de hierarquias fáceis. Genival Lacerda divide espaço com The Police; Rita Lee conversa com Ricky Martin; The B-52’s ecoam ao lado de Eduardo Dusek. Não há ironia condescendente nem paródia. O que se estabelece é um campo de escuta horizontal, em que gêneros, décadas e idiomas coexistem sem pedir licença. Em tempos de segmentação algorítmica extrema, essa escolha soa quase subversiva.

Há também um jogo sofisticado de deslocamento semântico. Canções originalmente marcadas por carga emocional intensa, quando executadas em timbres diminutos, não perdem densidade — ao contrário, muitas vezes a intensificam. O contraste entre forma e conteúdo força o ouvinte a reaprender a escutar. O drama não se dissolve; ele se revela, às vezes de maneira ainda mais crua, justamente por estar desarmado.

O espetáculo costuma ser rotulado como “para todas as idades”, definição prática, porém insuficiente. O que acontece em Música de Brinquedo 2 não é um consenso etário, mas a sobreposição de camadas de leitura. Crianças respondem ao estímulo sensorial imediato — som, cor, movimento. Adultos reagem à memória, à ironia, à desconstrução. O projeto não simplifica a música para torná-la acessível; ele confia na inteligência do público ao complexificá-la.

Nesse sentido, a presença de Groco e Ziglo, bonecos criados em parceria com o Giramundo, é central. Longe de funcionarem como mero alívio cômico, os personagens operam como figuras trágicas disfarçadas. Em faixas como “Não Se Vá”, eles dão voz a temas como abandono e perda com uma frontalidade que talvez soasse excessiva se dita por um adulto em carne e osso. O boneco, aqui, não infantiliza — ele autoriza.

Visualmente, o espetáculo reforça esse discurso. O cenário inspirado nos desenhos de Anna Cunha, aliado ao trabalho de Andrea Costa Gomes, Fernando Maculan e ao desenho de luz de Adriano Vale, rejeita o hiper-realismo tecnológico. O traço visível, o aspecto artesanal e a estética do “feito à mão” dialogam diretamente com a sonoridade em miniatura. Tudo conspira para afastar o espetáculo da lógica do excesso e aproximá-lo da experiência.

O que mantém Música de Brinquedo 2 artisticamente relevante, mesmo após Disco de Ouro, Grammy Latino e turnês incessantes, é justamente a recusa em transformá-lo em produto automático. O Pato Fu sustenta o projeto na dúvida, no risco e na escuta. Cada apresentação se coloca como acontecimento, não como reprodução.

No fim, o que o espetáculo propõe não é um retorno ingênuo à infância, mas um resgate de sua potência original: a infância como território de experimentação, erro e descoberta. Em um mercado musical cada vez mais orientado por performance e previsibilidade, Música de Brinquedo 2 lembra que a música, antes de ser indústria, foi jogo. E talvez continue sendo — se alguém tiver coragem de brincar.

INGRESSOS ESGOTADOS

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