Resgate histórico mostra uma Pitty reflexiva, crítica e em plena fase “Anacrônico”, discutindo mídia, drogas, futebol e o futuro da indústria musical.
Em setembro de 2006, no auge da era Anacrônico, Pitty concedeu uma entrevista exclusiva ao então fã-site PittyBR.com, portal que naquele ano se destacava nacionalmente e viria a vencer o extinto prêmio VMB na categoria de fã-site. A entrevista foi conduzida pelo jornalista José Alsanne (@alsanne), registrando a artista em um momento de maturidade criativa e reflexão crítica sobre sua carreira e o cenário musical da época.
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| Pitty | Créditos: Stephanie Hahne @stephaniehahne |
Quase duas décadas depois, o conteúdo permanece atual e revelador sobre o pensamento da artista naquele período de consolidação definitiva no rock brasileiro.
1. Comparações e rótulos: elas atrapalham ou ajudam?
Pergunta: Três anos se passaram desde Máscara, seu primeiro sucesso. No começo, você era comparada a Alanis, Rita Lee e Avril Lavigne. Hoje, você é “a Pitty” e outras bandas de vocal feminino surgem sendo comparadas a vocês. Essa necessidade de rótulos das pessoas atrapalha no começo?
2. Sobre o Muse e o novo álbum Black Holes And Revelations
Pergunta: Todo mundo sabe que você adora o Muse e ele influencia o som de vocês. Recentemente o Muse lançou Black Holes And Revelations, com influências bem techno. O que você achou do novo CD?
3. Fãs “superficiais”: irrita ou decepciona?
Pergunta: Todo roqueiro tem fãs diversos. Alguns só gostam porque veem clipe na MTV ou rádio. Isso te irrita ou incomoda?
Resposta: Na verdade, decepciona um pouco, embora eu nunca tenha criado a ilusão de que todos entenderiam o que a gente faz. Quando você lida com a grande mídia e um público mais massivo, isso é inevitável. Aí me apego aos poucos e bons, e torço para que os outros criem consciência com o tempo. Tem gente mala e gente legal em tudo que é canto; com a gente seria diferente?
4. Drogas: preconceito e liberdade pessoal
Pergunta: Todo roqueiro é estereotipado como drogado ou maconheiro. Como você vê isso, considerando sua posição no rock brasileiro?
5. Internet e música: aliada ou inimiga?
Pergunta: Você elogiou a internet quanto à veiculação de músicas, diferente da maioria que critica. Hoje há inúmeros sites e blogs sobre você. Você acompanha e acha positivo?
Resposta: Acho muito positiva. A internet é uma grande fonte de informação. Quanto à veiculação de músicas, não é o problema; é a pirataria de rua. Quem tem internet rápida também tem grana para comprar discos. É até honesto ouvir um disco em MP3 primeiro e investir se gostar. Além disso, a internet permite conhecer bandas sem discos lançados aqui, vídeos, livros e outros conteúdos. Quem for esperto usa para adquirir conhecimento; quem não for, perde tempo com fofocas ou tópicos imbecis.
6. Repertório de shows: escolhas e flexibilidade
Pergunta: Vocês já disseram que escolhem repertório pensando no que querem tocar e no que os fãs querem ouvir. Por que “De Você”, “No Escuro” e “Guerreiros” às vezes ficam de fora?
Resposta: Damos prioridade a outras músicas, mas já tocamos essas várias vezes. O repertório é mutante; procuramos ir de acordo com a vibe do dia para não enjoar. Não desejo que o show fique previsível, então arrisco coisas novas. Tentamos equilibrar nossa satisfação pessoal com a da galera. Em festival, tocamos os mais conhecidos; em show próprio, podemos tocar lados B e covers obscuros. Decidimos no camarim, minutos antes de subir ao palco.
7. Copa do Mundo, alienação e prioridades
Pergunta: No último show em Minas, você riu ao lembrar da derrota do Brasil na Copa. A alienação do povo em eleições e esportes te incomoda?
Resposta: Existe uma supervalorização nociva do futebol. É sufocante ver o país parar na Copa. Ninguém trabalha direito, e a mídia estimula isso. Jogadores viram celebridades e aparecem vendendo produtos constantemente. Cria-se um pseudo-orgulho nacionalista que não condiz com a realidade. É uma falsa alegria, um “pão e circo”. Não devemos nos contentar só com futebol, temos que buscar também igualdade e justiça.
8. Influências filosóficas: uma frase para reflexão
Pergunta: A banda tem influências de grandes filósofos e escritores. Qual frase ou trecho você deixaria para os fãs refletirem?
Resposta: A gente costuma culpar o mundo e os outros pelas coisas que nos acontecem, sendo que somos senhores do nosso destino. Gosto de uma frase de Byron:
“Os espinhos que me feriram foram produzidos pelo arbusto que eu plantei.”
Cada um pode interpretar à sua maneira.
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| Jornalista José Alsanne com Pitty no lançamento da turnê Matriz, em 2018. |


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