Entrevista | RoB Love aprofunda identidade artística em MAGIK, álbum produzido por Kassin e Mario Caldato Jr.

MAGIK marca o momento em que RoB Love transforma escolha estética em discurso. Ao assumir o reggae e o dub como eixo central de seu segundo álbum, a artista se afasta de leituras decorativas do gênero e o reivindica como território de experimentação, crítica e posicionamento político. As 12 faixas autorais se constroem a partir de camadas sonoras cuidadosamente elaboradas, nas quais delays, reverbs e silêncios cumprem função narrativa, enquanto as letras operam entre a intimidade, a ancestralidade e a urgência de pensar liberdade em tempos de crise. Produzido por Kassin e Mario Caldato Jr., o disco estabelece um diálogo consistente entre tradição e contemporaneidade, articulando referências jamaicanas, brasileiras e californianas sem diluir identidade. Entre Recife, Rio de Janeiro e Los Angeles, RoB Love afirma uma obra que entende a música como ferramenta de consciência, afeto e resistência cultural. Em conversa com o Music On The Road, a artista aprofunda esse processo e reflete sobre criação, território e o papel transformador da música.

Créditos: Jorge Bispo

1) MAGIK apresenta 12 faixas autorais que transitam entre rock, dub e reggae romântico. Qual foi a ideia central que guiou a construção do álbum e como você quis criar esse universo mágico e afetivo para o ouvinte?

O dub é uma paixão. Fiz parte de um trio de dub e adoro essa experimentação que ele traz — brincar com efeitos, reverbs e delays dentro do estúdio, criando uma outra camada sonora para a música. A isso se soma o meu lado romântico, mais suave e feminino, chamando para dançar, para se mover. Acho que essa mistura é o grande molho de MAGIK: uma música profunda e, ao mesmo tempo, leve.

2) “High and Free” foi inspirada por um sonho da sua filha e transformou um pesadelo em libertação musical. Como você traduz experiências pessoais e familiares em narrativas poéticas que dialogam com temas universais?

As experiências pessoais sempre me levam a escrever e, quando escrevo, imagino que aquilo que vivi também está presente na vida de muitas outras pessoas. O pesadelo da minha filha me tocou profundamente; era sobre o medo da falta de liberdade, algo que também me aflige nesse mundo insano em que vivemos. “High and Free” é um chamado para olhar com mais atenção para o caminho das próximas gerações.

3) Trabalhar com Kassin, no Brasil, e Mario Caldato Jr., em Los Angeles, resultou em uma sonoridade muito singular. Como cada produtor contribuiu para a estética final do disco e como vocês equilibraram tradição e inovação?

Gravamos bateria e baixo no estúdio do Kassin, no Rio de Janeiro. De lá, seguimos juntos para Los Angeles, onde finalizamos o disco no estúdio do Mario Caldato Jr. Trabalhar com os dois foi uma experiência incrível: eles se entendem e se complementam muito bem, cada um com seu olhar peculiar e totalmente abertos a novas ideias. Foram dez dias intensos de estúdio em L.A., com a colaboração do tecladista Roberto Pollo, e juntos demos vida às faixas que foram cuidadosamente escolhidas para compor MAGIK.

4) Recife é uma cidade marcada por contrastes sociais e culturais, e você cita influências locais, como Chico Science. De que forma a sua origem pernambucana dialoga com as referências internacionais no álbum?

Vejo tudo como um grande caldeirão de referências. Por ter raízes pernambucanas — e muito fortes —, carrego comigo muitas influências locais, que naturalmente se misturam a tudo o que ouço de música do mundo. Gosto de me expressar de forma universal, porque a música é universal. Como escreveu o próprio Chico Science:

“Pernambuco embaixo dos pés e a mente na imensidão.”

5) Muitas das suas composições abordam amor, liberdade e transcendência em contextos complexos. Como você equilibra leveza, introspecção e crítica social no seu trabalho autoral?

Estamos vivendo tempos sombrios no mundo, e essa crítica aparece em muitas das minhas letras. Mas acredito que só através do amor e da consciência é possível mudar alguma coisa. Por isso amo o reggae: ele me permite abordar temas densos por meio de uma música solar e leve — exatamente o que precisamos neste momento.

“I want bright music for dark times, cause love is the only way I can fight.”

6) Olhando para toda a sua trajetória e para o lançamento de MAGIK, que experiência você espera que os ouvintes tenham ao mergulhar no álbum? Como você enxerga a música como ferramenta de expressão, liberdade e conexão cultural?

Vejo a música como o maior canal de expressão que existe, com um poder gigantesco de transformação. MAGIK busca tocar o ouvinte com amor, despertar novos movimentos, expandir a percepção e provocar liberdade.

MAGIK se afirma como um álbum que resiste à lógica do consumo rápido e da escuta descartável. Em vez de buscar impacto imediato, RoB Love aposta na construção de atmosfera, no tempo dilatado do dub e na força simbólica do reggae como linguagem histórica de consciência e libertação. As faixas se desenvolvem como paisagens sonoras em que efeitos, silêncios e repetições funcionam como narrativa, enquanto as letras operam entre o íntimo e o coletivo, transformando experiências pessoais em comentário social. Produzido com rigor e sensibilidade por Kassin e Mario Caldato Jr., o disco articula referências globais sem apagar suas raízes, mantendo Recife como ponto de partida e o mundo como horizonte. Em um cenário marcado pela superficialidade estética, MAGIK propõe uma escuta atenta, afetiva e política — e reafirma a música como espaço de reflexão, afeto e permanência.

Por que ouvir MAGIK?

• Porque não trata o reggae como estética, mas como discurso.
O gênero aparece como linguagem viva, histórica e consciente.

• Porque constrói atmosfera, não apenas canções.
Efeitos, grooves e silêncios criam uma escuta imersiva e contínua.

• Porque equilibra afeto e crítica social.
Leve na forma, profundo no conteúdo.

• Porque conecta territórios e referências.
Recife, Rio de Janeiro e Los Angeles dialogam sem diluir identidade.

• Porque valoriza o tempo da música.
Um disco que convida à pausa, à escuta e à permanência.

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