MOMO. transforma duas décadas de trajetória em síntese musical no álbum “Tum Tum Tum”

Com participações de Marcos Valle e Nina Miranda, artista brasileiro radicado em Londres apresenta disco que une MPB, folk psicodélico, groove tropical e jazz contemporâneo

Foto: Sophia Poole / Divulgação

Há artistas que constroem suas carreiras a partir de rupturas. Outros preferem a continuidade como método criativo. É nesse segundo grupo que se encontra MOMO., músico brasileiro radicado em Londres que chega ao seu oitavo álbum de estúdio com a convicção de quem transformou mais de duas décadas de experimentação musical em uma identidade própria. O resultado desse percurso é “Tum Tum Tum”, trabalho que reúne influências brasileiras e internacionais em oito faixas marcadas por ritmo, poesia e liberdade estética.

O disco conta com participações especiais de Marcos Valle, um dos nomes mais importantes da música brasileira, e de Nina Miranda, cantora britânica-brasileira conhecida por sua trajetória à frente do Smoke City. A recepção internacional também já começou de forma positiva: o álbum recebeu quatro estrelas da revista britânica Mojo, publicação considerada uma das mais respeitadas da crítica musical mundial.

Mais do que um novo lançamento, “Tum Tum Tum” funciona como uma espécie de retrato da trajetória artística de MOMO. Ao longo dos anos, o músico transitou entre diferentes universos sonoros, do folk psicodélico à música brasileira de matriz percussiva. Neste trabalho, essas referências deixam de ocupar espaços separados e passam a coexistir de maneira orgânica.

“Eu sempre transitei livremente por caminhos estéticos diferentes. Desde o começo da minha carreira, nos meus primeiros discos, o folk psicodélico já ditava o tom das minhas canções. Ao longo dos últimos anos e trabalhos, fui introjetando o samba e ritmos mais brasileiros à minha identidade. O ‘Tum Tum Tum’ funciona como um apanhado e uma síntese madura de todos os estilos que acumulei na bagagem”, explica o artista.

O título escolhido para o álbum não poderia ser mais simbólico. A expressão onomatopeica faz referência ao pulso constante que atravessa o trabalho, tanto musical quanto conceitualmente.

“O álbum carrega o ritmo de mais de duas décadas inteiramente dedicadas ao fazer artesanal da música. É sobre a persistência e a clareza de um artista que permaneceu próximo o suficiente do seu ofício para que a criação se tornasse algo seguro”, afirma.


ENTRE BRASIL E EUROPA

A condição de artista brasileiro vivendo no exterior influencia diretamente a construção do álbum. As canções carregam elementos profundamente conectados à música brasileira, mas dialogam naturalmente com sonoridades globais e com experiências acumuladas ao longo dos anos na Europa.

Essa característica aparece de forma evidente em “Canto de Aldeia”, faixa que reúne MOMO. e Nina Miranda. Alternando versos em português e inglês, a canção constrói uma atmosfera sensorial a partir de imagens ligadas à natureza, como sol, areia, água e vento. O resultado é um encontro entre duas trajetórias cosmopolitas que compartilham raízes brasileiras.

A abertura do álbum fica por conta de “Egum Eô”, composta em parceria com Wado. A música surge como uma celebração da percussão afro-brasileira e estabelece desde os primeiros minutos o coração rítmico do disco. O “tum tum tum” que dá nome ao projeto aparece como força motriz de uma narrativa marcada por espiritualidade, movimento e renascimento.

“Vermelho e Rosa” aposta em imagens cotidianas para construir uma canção sobre renovação. Entre chuva, crianças brincando e a batida do congá, a faixa revela uma das faces mais luminosas e populares do álbum.

MEMÓRIA, AFETO E MATURIDADE

Em diferentes momentos, “Tum Tum Tum” também funciona como um exercício de memória. É o caso de “Dream of Samba”, composição cantada em inglês que mistura samba, bossa nova e psicodelia para revisitar sonhos de infância e o desejo de seguir uma vida dedicada à arte.

Outra faixa que se destaca é “Morena”, parceria com Marcelo Camelo e Marcos Valle. Com melodia suave e imagens inspiradas na natureza, a música reforça a conexão do álbum com a tradição da canção brasileira sem abrir mão da identidade contemporânea que caracteriza a obra de MOMO.

Em “Dente d’Ouro”, o artista apresenta um olhar mais maduro sobre o próprio percurso. A letra abandona idealizações para refletir sobre resistência, transformação e passagem do tempo. É uma canção construída a partir da experiência de quem compreende que seguir em frente também exige reconhecer as marcas acumuladas pelo caminho.

O tema das relações humanas ganha destaque em “Tudo Que se Tem”, parceria com Thiago Camelo. Guiada pelo ritmo do afoxé, a faixa aborda afeto, reciprocidade e entrega, criando uma atmosfera que aproxima natureza e sentimentos.

UM ENCERRAMENTO SERENO

O álbum chega ao fim com “Tranquilo”, canção que trata da distância, do silêncio e da aceitação sem recorrer ao drama. A faixa transforma pequenas cenas do cotidiano em reflexões sobre presença e pertencimento, encerrando o trabalho de forma contemplativa.

A música também possui uma história particular dentro do processo de criação do disco.

“Eu resgatei um registro que fiz de madrugada, quando ainda morava em Lisboa. Tornou-se uma canção existencial e reflexiva sobre estar presente, encontrar o sagrado e a quietude de uma casa”, conta MOMO.

Essa relação entre tempo, deslocamento e construção coletiva também marcou as gravações. O artista entrou em estúdio levando apenas fragmentos de letras e melodias, desenvolvendo os arranjos ao lado do baterista francês Thomas Broda e do percussionista Jim Le Mesurier, parceiros de apresentações pela Europa.

O resultado é um álbum que não busca definir fronteiras entre estilos, mas construir pontes entre eles. Em vez de perseguir tendências passageiras, MOMO. aposta na consolidação de uma linguagem própria. E é justamente nessa confiança que “Tum Tum Tum” encontra sua maior força: a capacidade de transformar vinte anos de estrada em música viva, pulsante e profundamente conectada ao presente.

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