Matéria Especial - Jão
Música / Lançamentos
Quinto álbum do cantor chega quase dez anos após sua estreia, tem o luto pela perda do pai como fio condutor e faz referência a Machado de Assis no título — o trabalho foi apresentado previamente a milhares de fãs em uma audição gratuita no centro de São Paulo

Jão está de volta com "Memórias Póstumas", seu quinto álbum de estúdio e o primeiro trabalho desde a estreia fonográfica com "Lobos" (2018) a romper completamente com a estrutura conceitual que organizou sua discografia até aqui. Quase uma década após surgir no cenário musical, o cantor entrega o projeto mais pessoal de sua carreira: um disco construído a partir do luto pela morte do pai, batizado em referência a Machado de Assis e apresentado antecipadamente a milhares de fãs reunidos no centro de São Paulo.

Capa Memórias Póstumas
Créditos: Hugo Comte

FIM DA ERA DOS QUATRO ELEMENTOS

Até aqui, a trajetória de Jão em estúdio seguiu uma lógica clara de ciclos. "Lobos" (2018) tinha a terra como elemento-guia; "Anti-Herói" (2019) representava o ar; "Pirata" (2021), indicado ao Grammy Latino, correspondia à água; e "Super" (2023) encerrava a sequência com o fogo. Cada álbum chegava acompanhado por uma identidade visual própria — paleta de cores, figurinos e símbolos que se renovavam completamente a cada nova era.

É justamente essa estrutura que "Memórias Póstumas" abandona. Sem um novo elemento a explorar dentro da narrativa anterior, o álbum rompe com a lógica dos quatro ciclos e assume uma abordagem mais aberta. Nas palavras do próprio cantor, trata-se de "uma história com começo, mas sem fim": um trabalho menos preso a uma moldura conceitual e mais dedicado às experiências, memórias e sentimentos que atravessam sua trajetória pessoal.

UMA AUDIÇÃO PARA MILHARES DE FÃS

A pausa que antecedeu o novo álbum também possui uma cronologia definida. O ciclo de "Super" chegou ao fim em 18 de janeiro de 2025, com a última apresentação da turnê no Allianz Parque, em São Paulo. Meses depois, em abril, Jão anunciou uma pausa na carreira após sua participação no Lollapalooza Brasil. O silêncio público durou mais de um ano, até o retorno do cantor às redes em 23 de julho, quando revelou oficialmente a chegada de seu quinto álbum.

Três dias depois, a nova fase ganhou as ruas. Documentos registrados na Prefeitura de São Paulo revelaram a estrutura de um evento oficialmente chamado "Audição — Jão", com um palco superior a 30 metros montado no Vale do Anhangabaú para receber o público. A estimativa era reunir cerca de 15 mil pessoas, número superior aos 12 mil fãs que acompanharam Jão no Ginásio do Ibirapuera em 2023.

Às 21h daquele domingo (26/07), poucas horas depois de os fãs ouvirem o álbum completo ao vivo, "Memórias Póstumas" chegou oficialmente às plataformas digitais.

O LUTO COMO MATÉRIA-PRIMA

O ponto de partida do álbum é profundamente biográfico: o disco nasceu durante um período de afastamento dos palcos e das redes sociais, pouco depois da perda do pai do cantor. A ausência atravessa o repertório desde a faixa de abertura, "Catedral", transformando a dor em eixo narrativo do projeto.

"É algo que ainda não processei e acho difícil que aconteça, porque meu pai ainda é muito presente. E as pessoas sempre têm receio de falar sobre ele comigo, mas elas não sabem que eu adoro falar sobre ele, mantê-lo vivo."

DEDICATÓRIA DE MACHADO DE ASSIS

O título também estabelece uma referência direta à literatura brasileira. "Memórias Póstumas" dialoga com "Memórias Póstumas de Brás Cubas", clássico de Machado de Assis publicado em 1881. A famosa dedicatória do romance — "ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver" — reaparece de forma ressignificada na faixa-título, que encerra o álbum, no verso: "tente não ser o primeiro a roer as frias carnes do meu corpo passageiro".

Entre as referências que atravessaram o processo criativo, Jão cita ainda "Memórias, Crônicas e Declarações de Amor", de Marisa Monte; "MTV Acústico", do Kid Abelha; e "Ray of Light", de Madonna.

O processo de composição também rompeu com o método dos trabalhos anteriores. Ao todo, foram escritas 68 músicas, posteriormente reduzidas às 14 faixas que compõem o álbum final. "São vários caquinhos, sentimentos que você ainda não sabe o nome e um monte de vômitos de palavras que você vai remontando e que, quando você se afasta, revelam a figura toda", explica Jão sobre a construção do repertório.

NOMES POR TRÁS DA PRODUÇÃO

Das 14 faixas do álbum, Jão assina 13 — oito delas em parceria com Pedro Tófani, namorado do artista e diretor criativo responsável por parte da construção visual de seus shows. O projeto também marca a primeira vez em que mais de uma música de um álbum seu é escrita e produzida integralmente por ele sozinho.

A única exceção é "João", composta integralmente por Pedro Tófani e dedicada a uma narrativa sobre um relacionamento marcado por idas e vindas. Na produção, o nome central continua sendo Zebu (Guilherme Santos Pereira), parceiro de Jão desde "Pirata" (2021) e responsável pela maior parte da sonoridade do novo trabalho.

"O AMOR", O ÁPICE DO DISCO

Entre as 14 faixas, "O Amor" surge como um dos momentos mais ambiciosos do álbum. A música reúne Jão e Zebu ao lado do produtor veterano Marco Mazzola, do violonista Rick Ferreira, do baixista Paulo César Barros, além de coral e arranjos de metais.

A faixa concentra uma das sínteses emocionais de "Memórias Póstumas": a tentativa de compreender um sentimento que permanece mesmo quando escapa ao controle. Entre seus versos mais marcantes está: "eu acho horrível e bonito que o amor não escolhe pra onde vai".

Imagem promocional Memórias Póstumas
Créditos: Hugo Comte

Raio-X MOTR

  • Artista: Jão
  • Álbum: Memórias Póstumas
  • Lançamento: 26 de julho de 2026
  • Conceito: Álbum confessional construído a partir do luto, das memórias e da ruptura com o ciclo dos quatro elementos.
  • Faixa destaque MOTR: "O Amor"