Sete anos depois de Matriz, a cantora lança 13 músicas que passam pelo desejo, pela raiva, pelas relações desfeitas e pelo cuidado. Com produção dividida com Rafael Ramos, PITTY⚡ preserva as guitarras enquanto experimenta outras possibilidades sonoras
POR: LUCAS CORRÊA
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| Créditos: Jorge Daux |
Em Álbum de Casamento, uma separação chega a questões bastante concretas: o destino das fotografias, a devolução de senhas, a recuperação da autoestima. Em Cuidada, uma filha revisita as lembranças da infância e começa a compreender a história da mulher que conheceu primeiro como mãe. Já em “Amiga,”, o ressentimento aparece diante de uma relação em que a exposição pública parece ter se tornado mais importante do que a confiança.
São situações diferentes, mas que ajudam a entender o universo de PITTY⚡, sexto álbum de inéditas da cantora, lançado nesta sexta-feira, 16 de outubro, pela Deck. Sete anos depois de Matriz (2019), Pitty retorna ao formato de álbum com 13 composições que atravessam experiências pessoais, conflitos afetivos e questões sociais sem a preocupação de apresentar uma versão idealizada da maturidade.
Há desejo, ironia e enfrentamento, características conhecidas de sua escrita. Mas também há espaço para pedir desculpas, reconhecer fragilidades e admitir que determinadas histórias não terminam quando decidimos encerrá-las.
O disco foi produzido por Pitty e Rafael Ramos, parceiro que acompanha diferentes momentos de sua carreira. As músicas surgiram durante um processo de composição concentrado em menos de dois meses. Segundo o material de divulgação, a cantora voltou a trabalhar sozinha ao violão e, em seu estúdio, passou a desenvolver também riffs, arranjos e demos antes das gravações.
“Sinto que estou fazendo o meu primeiro disco, essa é a minha sensação”, declarou Pitty.
A frase pode parecer curiosa para alguém com mais de duas décadas de carreira, mas diz respeito à maneira como essas músicas nasceram. Rafael Ramos conta que recebeu as primeiras versões com boa parte das ideias musicais já desenvolvidas. Os riffs, as batidas e até as mudanças de dinâmica estavam ali, antes de serem trabalhados coletivamente no estúdio.
O resultado mantém o rock no centro, mas não se prende a uma única forma de tocá-lo. A formação conta com Martin Mendonça nas guitarras, Paulo Kishimoto no baixo e em outros instrumentos, Nico na bateria e Rodrigo Tavares nos teclados. Nave e Felipe Vassão participam de produções específicas, acrescentando outras referências ao repertório.
Análise, por Carol Govari
No texto crítico que acompanha o lançamento, Carol Govari chama atenção para a escolha de um álbum homônimo neste momento da carreira de Pitty. Em vez de enxergar o próprio nome como uma tentativa de resumir a artista, a autora propõe entendê-lo como ponto de partida para observar suas diferentes experiências.
“Pitty é o título do dossiê – não a conclusão da investigação”, escreve.
É uma observação que encontra respaldo na variedade de assuntos das composições. A cantora pode ser provocadora em uma faixa e demonstrar fragilidade na seguinte. Pode celebrar a independência, reconhecer a importância dos vínculos ou admitir que nem sempre conseguiu compreender o sofrimento de alguém próximo.
Govari também identifica essa diversidade na construção musical. Em sua análise, Não à Deriva se aproxima do stoner, enquanto Álbum de Casamento encontra no blues uma referência importante. Pileque de Poeta recupera características do indie dançante dos anos 2000, e Sobriedade Seletiva aproxima punk-disco e house.
A crítica destaca ainda a combinação de rap e metal em DESOBEDIENTE, produzida por Pitty, Rafael Ramos e Nave, e as referências brasileiras presentes em Caminhada.
Outro ponto observado por Govari é a maneira como a produção preserva a energia das gravações. Ao definir o trabalho como “um disco suado”, ela chama atenção para uma sonoridade que procura manter a presença dos músicos, mesmo com o refinamento técnico da mixagem e da masterização.
Essa leitura ajuda a compreender a variedade musical do álbum. Há, ainda, outra possibilidade de aproximação, desta vez pelas letras, que permitem observar como o desejo de viver segundo as próprias escolhas se manifesta nas relações afetivas, nos conflitos pessoais e nas consequências dessas decisões.
ANÁLISE COMPLETA - CAROL GOVARI
Desejo, proteção e a necessidade de dizer não
A sequência começa com Sobremesa, primeiro single do projeto, lançado em setembro. O riff de guitarra apresenta uma Pitty familiar, enquanto a letra mistura desejo e referências gastronômicas para descrever uma relação marcada por atração e hesitação.
Há uma personagem que pensa em desistir durante o dia, mas reconsidera suas decisões quando a noite chega. A vontade de experimentar aquilo que desperta interesse entra em conflito com a percepção de que nem sempre existe reciprocidade.
É nesse ponto que a música ganha outra dimensão. A provocação sobre ir diretamente à sobremesa não representa apenas pressa ou apetite. Existe uma recusa em continuar oferecendo dedicação a quem entrega muito pouco.
Armadura, segunda faixa, trocar a urgência pela dificuldade de se permitir uma nova aproximação.
A letra fala de alguém que precisou construir defesas para enfrentar experiências dolorosas. Essas proteções ajudaram a atravessar situações difíceis, mas agora parecem dificultar a espontaneidade e a abertura emocional.
Pitty faz referência a Clarice Lispector e à liberdade de não precisar controlar permanentemente a maneira como somos percebidos.
O ponto mais interessante está no reconhecimento de que a proteção não foi inútil. A personagem não condena a armadura que precisou vestir. Ela compreende por que essa defesa existiu, embora agora deseje viver sem depender dela o tempo inteiro.
Há também uma reflexão sobre a capacidade de dizer não. Interromper relações que provocam sofrimento ou exaustão pode ser uma maneira de preservar a própria integridade.
Em DESOBEDIENTE, essa discussão ganha contornos coletivos. A composição questiona normas que não representam determinadas experiências e defende a possibilidade de confrontar regras estabelecidas.
A rebeldia aparece ligada à arte e à expressão, não apenas à vontade de provocar. A letra reconhece que questionar tem consequências, mas recusa a ideia de que isso seja motivo suficiente para aceitar tudo silenciosamente.
Musicalmente, a faixa reúne guitarras pesadas, programações e referências ao hip-hop. A produção compartilhada com Nave amplia o vocabulário sonoro sem abandonar a intensidade característica de Pitty.
O direito de continuar experimentando
Pileque de Poeta encontra humor na diferença entre a idade que aparece nos documentos e aquela que, em determinadas situações, ainda sentimos ter.
A imagem de alguém com mais de 40 anos experimentando o entusiasmo dos 15 revela uma relação menos rígida com o amadurecimento. A vida adulta costuma trazer responsabilidades, mas a música questiona a obrigação de abandonar a irreverência.
Não é exatamente uma tentativa de recuperar a juventude. A canção parece mais interessada em preservar a curiosidade, a disposição para sair da rotina e a capacidade de se surpreender.
A participação de Felipe Vassão na produção acrescenta programação e teclados, aproximando as guitarras de uma sonoridade voltada ao movimento.
Não à Deriva segue por outro caminho.
A letra reconhece a atração pelo risco e pela intensidade, mas deixa claro que essas escolhas não significam estar perdida. A personagem não deseja uma vida inteiramente previsível, tampouco aceita que essa disposição seja confundida com falta de consciência.
Uma das observações mais duras da música diz respeito à solidão que pode existir mesmo quando estamos acompanhados.
É uma percepção que ajuda a compreender a defesa da independência ao longo da composição. Permanecer em uma relação não significa necessariamente encontrar acolhimento. Estar só, por outro lado, não precisa representar abandono.
Pitty recusa a condição de quem permanece cativa ou passiva diante da própria vida.
Se Pileque de Poeta defende o direito de continuar experimentando, Não à Deriva acrescenta que viver intensamente não exige entregar a outra pessoa o controle sobre o próprio caminho.
Entre mulheres: o apoio e suas contradições
Há um contraste particularmente interessante entre Caminhada e “Amiga,”.
Na primeira, Pitty se dirige a uma mulher que atravessa um momento difícil. Em vez de oferecer conselhos ou prometer resolver seus problemas, a personagem se dispõe a permanecer ao lado dela.
A composição reconhece o cansaço que muitas vezes não encontra espaço para ser demonstrado. Também apresenta a solidariedade feminina como uma forma de enfrentar experiências que ultrapassam o sofrimento individual.
O apoio aparece em gestos concretos: estar presente, compartilhar dificuldades, reconhecer conquistas e não abandonar alguém quando a situação se torna mais difícil.
Em “Amiga,”, lançada na sequência de Sobriedade Seletiva, esse discurso encontra seu avesso.
A letra apresenta uma relação desgastada pela exposição pública e pela necessidade de aprovação nas redes sociais. A palavra amiga ganha um tom irônico diante de atitudes que parecem contradizer o afeto que deveria representar.
A personagem questiona a transformação de conflitos pessoais em oportunidades de repercussão e critica a utilização conveniente de discursos de solidariedade.
O reconhecimento público pode trazer visibilidade, mas dificilmente substitui a confiança de quem permanece ao nosso lado quando não há plateia.
Colocadas em diálogo, as duas composições levantam uma questão bastante atual: o que realmente significa apoiar alguém?
Em Caminhada, a resposta passa pela presença e pelo cuidado. Em “Amiga,”, Pitty demonstra o que acontece quando o discurso de apoio deixa de corresponder ao comportamento de quem o utiliza.
Entre elas, Sobriedade Seletiva apresenta um conflito de outra natureza.
A canção utiliza imagens associadas à dependência para descrever uma atração que desafia o autocontrole. Existe consciência dos riscos, mas também a vontade de experimentar algo que provoca prazer.
A personagem procura manter o equilíbrio sem abandonar completamente aquilo que a atrai. A contradição permanece durante toda a música.
Com Felipe Vassão na coprodução, a faixa aproxima programação eletrônica, teclados e guitarras, reforçando seu caráter dançante.
Trabalho, desigualdade e o direito à própria história
Em Madame, Pitty aborda uma discussão que costuma produzir julgamentos rápidos: a relação entre sucesso individual e desigualdade social.
A personagem reconhece que sua condição atual pode ser vista como privilegiada, mas lembra o trabalho necessário para chegar até ali. Ao mesmo tempo, admite que sua trajetória representa uma exceção e que as oportunidades não são distribuídas de maneira justa.
Essas duas percepções convivem na letra.
Reconhecer o próprio esforço não significa ignorar as vantagens de que outras pessoas dispõem. Da mesma forma, admitir a existência de desigualdades não obriga alguém a diminuir aquilo que construiu.
O aspecto mais interessante está na ausência de uma resposta pronta. A personagem gostaria que outras pessoas tivessem acesso às mesmas possibilidades, mas não apresenta uma solução simples para um problema estrutural.
Álbum de Casamento, na sequência, desloca a discussão para o campo afetivo.
A composição começa com uma situação cotidiana de separação: o que fazer com as fotografias de uma história que chegou ao fim?
Dessa pergunta surgem outras, relacionadas à confiança, à memória e ao direito de recuperar aspectos da própria vida que ficaram comprometidos durante o relacionamento.
A devolução de senhas torna esse processo bastante concreto. Não estamos apenas diante de uma ruptura sentimental, mas de uma reorganização de espaços pessoais e responsabilidades.
A personagem reivindica a autonomia sobre sua arte, seu corpo, sua maternidade e sua saúde emocional.
A intensidade dessa afirmação poderia conduzir a música para um encerramento exclusivamente marcado pela raiva. Mas Pitty acrescenta a possibilidade de trégua, apoio e reconhecimento de um vínculo que permanece importante.
A maternidade ganha peso nessa parte da narrativa. O fim de uma relação amorosa não elimina necessariamente todas as responsabilidades e formas de afeto construídas ao longo dela.
A aproximação com o blues, destacada na análise de Carol Govari, acompanha uma composição em que a dor não impede o reconhecimento da complexidade de uma história compartilhada.
Já Prazer, Universo retoma o tom ácido.
A personagem demonstra impaciência diante de comportamentos oportunistas e questiona a ideia de que basta esperar para que determinadas atitudes produzam consequências.
A letra critica quem utiliza relações pessoais em benefício próprio, especialmente quando interesses materiais se tornam mais importantes do que os vínculos afetivos.
Há deboche e ressentimento, mas também uma questão que atravessa outras músicas do álbum: a dificuldade de permanecer indiferente quando sentimos que fomos prejudicados.
Pitty não transforma essa reação em um exemplo de equilíbrio. A raiva aparece como parte da experiência, inclusive quando torna mais difícil distinguir justiça de satisfação pessoal.
Cuidada: a filha que finalmente consegue enxergar a mãe
Se algumas músicas confrontam pessoas e situações, Cuidada encontra sua força na tentativa de compreender.
A composição recupera lembranças de uma infância marcada pelo silêncio e pela dificuldade de comunicação. A mãe surge inicialmente como alguém emocionalmente distante, incapaz de oferecer determinadas manifestações de carinho.
A perspectiva muda quando a filha, agora adulta, consegue enxergar a história daquela mulher para além da maternidade.
O abandono, as dificuldades enfrentadas e os sonhos interrompidos passam a fazer parte dessa compreensão.
A filha percebe que aquilo que viveu durante a infância não pode ser entendido sem considerar o sofrimento que a mãe carregava.
Essa descoberta não apaga suas próprias necessidades, mas permite reconhecer que a mulher responsável por cuidar também enfrentava situações para as quais talvez não tivesse apoio.
O pedido de desculpas nasce desse reconhecimento.
Na parte final, a direção do cuidado se inverte. É a filha quem oferece acolhimento e demonstra à mãe que ela também merece descansar e receber afeto.
A canção ganha força por não transformar essa mudança em uma grande declaração sobre perdão ou superação. Seu centro está na possibilidade de compreender alguém de uma maneira que antes não parecia possível.
Depois de tantas músicas sobre independência, Cuidada lembra que precisar do outro não representa uma derrota pessoal.
Nó: nem tudo se resolve, mas é preciso continuar
O álbum termina com Nó, uma composição que utiliza imagens simples para tratar de problemas difíceis de enfrentar.
Colares embolados, obstáculos acumulados e situações deixadas debaixo do tapete representam conflitos que não desaparecem apenas porque decidimos ignorá-los.
A letra reconhece que algumas experiências não podem ser inteiramente reparadas. Existem relações que chegam ao fim, perdas que deixam marcas e situações nas quais insistir em recuperar o passado pode impedir qualquer movimento.
É uma percepção menos confortável do que a ideia de que tudo pode ser resolvido com esforço suficiente.
Às vezes, continuar exige aceitar que determinadas coisas mudaram definitivamente.
A imagem de uma criança aprendendo a andar dá à música seu sentido de encerramento. Existe a possibilidade de cair, mas a estabilidade só pode ser descoberta durante o movimento.
É um final coerente para um álbum que começa defendendo a urgência de viver.
Entre Sobremesa e Nó, Pitty percorre diferentes maneiras de lidar com aquilo que deseja, teme, perde ou procura preservar.
A primeira música não quer desperdiçar tempo. A última reconhece que algumas situações precisam justamente dele.
Um disco que não procura resolver todas as contradições
Uma característica de PITTY⚡ é a maneira como determinadas composições parecem responder umas às outras.
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| Capa do Álbum ‘PITTY ⚡’ (Foto: Jorge Daux) |
Armadura discute o esforço necessário para permitir aproximações. Cuidada mostra como a compreensão de outra pessoa pode transformar uma relação. Caminhada defende a solidariedade, enquanto “Amiga,” questiona sua utilização como discurso de conveniência.
Em Sobremesa, o desejo encontra limites. Em Sobriedade Seletiva, esses mesmos limites se tornam difíceis de sustentar.
Madame reconhece que a autonomia individual também é atravessada por desigualdades. Álbum de Casamento mostra como uma decisão pessoal pode envolver responsabilidades que permanecem depois de uma ruptura.
Essas relações não fazem do disco uma narrativa organizada em etapas. São aproximações possíveis entre letras que abordam experiências distintas.
Também é importante não confundir a voz das composições com um relato literal da vida privada da cantora. A escrita em primeira pessoa permite identificação e proximidade, mas não transforma automaticamente todas as situações narradas em acontecimentos biográficos.
O que essas músicas oferecem, antes de tudo, são maneiras de observar conflitos familiares a muitas pessoas.
O trabalho chegou às plataformas sete anos depois de Matriz, mas não parece interessado apenas em recuperar a sonoridade ou a postura de uma fase anterior.
A produção de Pitty e Rafael Ramos, com gravações nos estúdios Tambor, Space Blues e 12 Dólares, preserva a presença das guitarras e abre espaço para diferentes soluções de arranjo. A mixagem ficou a cargo de Ramos, no Estúdio Tambor, enquanto a masterização foi realizada por Randy Merrill, no Sterling Sound, em Nova Jersey, nos Estados Unidos.
Nos palcos, essa nova etapa começa neste sábado, 17 de outubro, no Espaço Unimed, em São Paulo, com ingressos esgotados. A turnê também tem apresentações anunciadas em Belo Horizonte, Porto Alegre, Vitória, Curitiba, Recife, Ribeirão Preto, Sorocaba, Balneário Camboriú e Leopoldina.
Mais de duas décadas depois de Admirável Chip Novo, Pitty continua trabalhando com temas que atravessam sua trajetória: autonomia, questionamento, desejo e resistência.
A diferença é que, neste disco, defender o direito de escolher não impede a personagem de reconhecer suas próprias contradições.
Há situações em que é necessário romper. Em outras, permanecer. Às vezes, a decisão mais difícil é admitir um erro ou reconhecer que alguém próximo também precisava de cuidado.
PITTY⚡ encontra seus momentos mais interessantes quando permite que essas experiências coexistam, sem transformá-las em respostas definitivas.
Afinal, crescer não elimina a vontade de experimentar, assim como aprender a se proteger não significa deixar de precisar de afeto.
E talvez seja justamente essa a questão que atravessa o álbum: continuar sendo dona das próprias escolhas, mesmo depois de descobrir que nem todas elas dependem apenas de nós.

