A escolha da influenciadora digital e Musa Fitness Fabi Frota para a capa da principal revista editorial dedicada ao Carnaval paulistano ocorre em um momento em que o desfile das escolas de samba de São Paulo intensifica seu diálogo com temas históricos, identitários e de gênero. Mais do que destacar trajetórias individuais, a publicação reflete uma transformação gradual na forma como o Carnaval se posiciona como espaço de elaboração simbólica e disputa de narrativas.
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| Créditos: Alex Pires – @leccopires / Divulgação |
Confirmada como Musa da Escola de Samba Colorado do Brás, do Grupo Especial da LIGA-SP, Fabi também desfilará como Destaque de Chão no Carnaval de 2026. Sua presença integra um movimento recorrente no Carnaval contemporâneo: a incorporação de figuras com capital midiático às engrenagens simbólicas das escolas, fenômeno analisado por pesquisadores da cultura popular como parte do processo de profissionalização e expansão da visibilidade da festa.
Fundada em 1975, no bairro do Brás — território historicamente marcado pela imigração, pela industrialização e pela organização da classe trabalhadora paulistana —, a Colorado do Brás construiu sua identidade em diálogo direto com a comunidade e com a tradição do samba urbano em São Paulo. Ao longo de sua trajetória, a escola alternou passagens pelos diferentes grupos do Carnaval, consolidando-se como uma agremiação cuja permanência se dá menos pela estabilidade competitiva e mais pela capacidade de resistência simbólica.
No Carnaval de 2025, a Colorado alcançou a décima colocação no Grupo Especial, mantendo-se na elite do desfile. Para 2026, a aposta recai sobre um enredo que dialoga diretamente com debates acadêmicos contemporâneos: “A Bruxa Está Solta! Senhoras do Saber Renascem na Colorado”, assinado pelo carnavalesco David Eslavick, em seu segundo ano à frente da criação artística da escola.
Sob a perspectiva da história cultural, o enredo propõe uma releitura da figura da “bruxa” não como arquétipo do mal, mas como resultado de processos históricos de perseguição a mulheres detentoras de saberes não institucionalizados — curandeiras, parteiras, líderes espirituais e transmissoras de conhecimento oral. A narrativa dialoga com estudos feministas que identificam a caça às bruxas, sobretudo na Europa moderna, como mecanismo de controle dos corpos femininos e de repressão à autonomia intelectual das mulheres.
Do ponto de vista antropológico, o Carnaval surge como espaço privilegiado para essa ressignificação. Ao transportar para a avenida personagens historicamente marginalizadas, o desfile atua como ritual coletivo de inversão simbólica, no qual aquilo que foi silenciado pela história oficial ganha visibilidade e centralidade. Nesse sentido, a Colorado se insere em uma tradição carnavalesca que extrapola o entretenimento e se afirma como linguagem crítica, capaz de condensar memória, conflito e identidade em forma de espetáculo.
A escolha do tema também acompanha um movimento mais amplo no Carnaval brasileiro recente, em que enredos protagonizados por narrativas femininas, negras e dissidentes têm ocupado posição central nos desfiles, refletindo debates sociais que atravessam o país. Ao colocar o “saber feminino” no centro da narrativa, a Colorado tensiona hierarquias históricas de conhecimento e propõe uma leitura política da memória.
O desfile está marcado para a sexta-feira, 13 de fevereiro, quando a Colorado do Brás será a segunda escola a entrar na passarela do samba, abrindo a primeira noite do Grupo Especial, no Sambódromo do Anhembi. Em busca de seu primeiro título, a escola aposta na força simbólica do enredo e na coerência estética do conjunto para avançar na competição.
Ao estampar a capa da revista e integrar o elenco de destaques da escola, Fabi Frota passa a ocupar um lugar dentro dessa narrativa mais ampla, em que o Carnaval se reafirma como espaço de negociação entre tradição e contemporaneidade, visibilidade midiática e construção cultural. Mais do que personagens isolados, figuras e escolas tornam-se agentes de um campo simbólico em constante disputa — no qual a avenida funciona como palco e como texto.

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