Quando o ensaio técnico vira discurso: a Tucuruvi e o “Anti-Herói Brasil” em imagem

O ensaio técnico da Acadêmicos do Tucuruvi, realizado no Sambódromo do Anhembi no último sábado (10), ofereceu mais do que a tradicional verificação de tempo, chão e evolução. Em um Carnaval cada vez mais atento às camadas simbólicas que carrega, o evento antecipou um debate central do desfile de 2026: quem são os verdadeiros protagonistas da narrativa brasileira?

Créditos: Roberto Batista / Renato Cipriano - Zuleika Ferreira - Divulgação

A resposta começou a se desenhar na entrada de Milene Gonzalez, musa da escola pelo segundo ano consecutivo. Sua presença em pista não operou no registro habitual do adorno ou da exuberância gratuita. Ao contrário, funcionou como uma tradução visual imediata do enredo “Anti-Herói Brasil”, que propõe deslocar o olhar dos personagens épicos para os sujeitos anônimos que sustentam o país cotidiano.

Antes de ocupar a avenida, Milene observou atentamente a apresentação dos sambas-enredo e percebeu uma homogeneidade estética que, embora eficiente, diluía singularidades narrativas. A decisão de intervir nesse espaço — tradicionalmente técnico e funcional — revela consciência de que o Carnaval também se constrói nos detalhes e nos gestos que escapam ao protocolo.

O figurino, criado em parceria com o stylist Augusto Murilo e assinado pelo Espaço Luz Ateliê, articula uma tensão clara entre universos simbólicos. O chapéu de palha, signo direto do trabalho rural e da informalidade, contrasta com um corpo bordado em cristais Swarovski. Não se trata de contraste gratuito, mas de metáfora: o Brasil que brilha convive com o Brasil que resiste. Precariedade e luxo dividem o mesmo corpo, assim como dividem a mesma nação.

Sob os refletores do Anhembi, com a pista ainda úmida refletindo o dourado do figurino, a performance de Milene deslocou o ensaio de sua função utilitária. Gestos controlados, postura firme e economia de movimentos sugeriram uma encenação consciente, em que o corpo não apenas ocupa espaço, mas comunica sentido. Ali, a musa deixa de ser acessório e passa a operar como vetor narrativo.

Esse movimento não é isolado. Ele reflete uma transformação mais ampla no Carnaval paulistano, em que figuras femininas assumem papéis de mediação simbólica, ajudando a traduzir conceitos e discursos das escolas. A avenida, nesse contexto, reafirma-se como espaço de linguagem cultural — onde moda, política e identidade social se entrelaçam.

Assinado pelo carnavalesco Nicolas Gonçalves e pelo enredista Cleiton Almeida, o enredo “Anti-Herói Brasil” aposta justamente nessa inversão do imaginário heroico tradicional. Ao valorizar personagens fora do épico oficial, a Tucuruvi se alinha a uma leitura mais contemporânea do país: fragmentado, contraditório, mas sustentado por sujeitos invisibilizados.

Se o ensaio técnico serve como termômetro, a escola sinaliza que pretende levar à avenida um desfile que não se limita ao espetáculo visual. A aposta é em um Carnaval que se entende como discurso — e que, mesmo antes do apito final, já começa a ser narrado em imagem.

Postar um comentário

0 Comentários