Ao longo dos últimos anos, Di Ferrero vem conduzindo sua carreira solo por caminhos cada vez mais autorais, íntimos e conceituais. Distante da necessidade de repetir fórmulas ou perseguir expectativas externas, o cantor encontrou em “SE7E” o ponto de convergência entre transformação pessoal, amadurecimento emocional e expansão criativa.
Mais do que reunir os dois EPs lançados anteriormente, o novo álbum funciona como uma obra completa, construída para ser absorvida em sequência. As inéditas “Deixa Sonhar”, “Fim do Mundo” e “Cuida” não chegam como simples complementos ao repertório já conhecido: elas aprofundam a narrativa do projeto e ajudam a transformar “SE7E” em um retrato detalhado de um artista disposto a expor vulnerabilidades, rever relações e traduzir mudanças internas em música.
Em entrevista ao Music On The Road, Di Ferrero falou sobre a construção gradual do disco, a influência da astrologia e espiritualidade em sua vida, o peso emocional das inéditas e a necessidade de aprender a se colocar em primeiro plano.
“NÃO PODERIA SER SÓ UM EP. PRECISAVA SER UM MOMENTO”
A ideia de transformar os lançamentos fragmentados em um álbum completo surgiu de maneira orgânica. Segundo Di Ferrero, as músicas começaram naturalmente a apontar para um mesmo universo conceitual e emocional.
“Quando eu pensei na primeira parte, nas primeiras três músicas, falei: ‘cara, isso aqui tá muito legal, esse caminho é uma coisa nova pra mim, que vai me ajudar a crescer como artista, e eu quero continuar fazendo músicas assim’. E começou a ser natural compor uma sequência. Eu já tinha essa ideia, só não tinha certeza porque ainda estava fazendo as músicas.”
O artista destaca que lançar o projeto em partes permitiu uma relação diferente com o público. A recepção dos fãs passou a influenciar diretamente sua percepção sobre o próprio trabalho durante o processo de construção do álbum.
“O legal de lançar por partes foi que foi meio colaborativo. Com os fãs mesmo, eu sempre troco ideia: qual você mais gostou, por quê, o que bateu mais, o que se sentiu mais nessa ou naquela. Isso também foi diferente pra mim, foi inspirador.”
Ao perceber que existia uma narrativa se formando entre as músicas, Di entendeu que o projeto precisava ganhar dimensão maior do que a de lançamentos isolados.
“Gostei muito do conceito de ‘SE7E’, desse número importante de transformação, da minha ligação com astrologia, numerologia e espiritualidade — que é uma coisa de família. Então trazer isso nos meus 40 anos, tudo isso precisava ser um momento. Não poderia ser só um single isolado ou um EP isolado. Tem que ser um momento. E esse momento agora precisa de um encerramento também, que é esse final de lançamento.”
UM DISCO SOBRE LIMITES, AUTOCONHECIMENTO E CORAGEM
Grande parte da força emocional de “SE7E” nasce justamente da maneira como Di Ferrero transforma experiências pessoais em composição. O álbum é atravessado por reflexões sobre tempo, desgaste emocional, relações interpessoais e autocuidado.
Segundo o cantor, a principal mudança vivida durante a construção do projeto foi o desenvolvimento de maior consciência sobre aquilo que realmente faz sentido em sua vida.
“Acho que veio num momento da minha vida em que eu tenho mais sensibilidade pra saber o que eu quero e o que eu não quero. Sei bem o que não faz sentido pra mim. Meu tempo é a coisa mais importante da minha vida.”
Ao longo da entrevista, Di retorna diversas vezes à ideia de não ultrapassar mais seus próprios limites para atender expectativas externas — sejam elas profissionais, emocionais ou sociais.
“Eu não posso passar por cima do que eu quero pra agradar ninguém — mercado, pessoas, situações, tudo. Isso faz parte desse álbum, da minha vida. Ter coragem de falar não, de me posicionar de forma sincera.”
Essa postura acabou moldando não apenas os temas abordados nas letras, mas também a estética e o tom emocional do trabalho.
“Eu gostei de ser mais orgânico, mais tocado. E também da coragem de expressar algo diferente depois de iniciar a carreira solo, fora do que o público estava acostumado. Sem medo de julgamento. Tudo que a gente vai fazer, lançar, expor… precisa ter estômago pra isso. Mas conseguir fazer isso de forma bonita é o que eu gostei nesse álbum. Ele está bem amarrado, as músicas conversam entre si, contam uma história.”
“CUIDA” E O PESO DAS RELAÇÕES DESGASTADAS
Entre as inéditas do álbum, “Cuida” surge como um dos momentos mais íntimos e emocionalmente densos de “SE7E”. A faixa aborda desgaste emocional, ausência de reciprocidade e o impacto de relações que deixam de ser acolhedoras.
Segundo Di Ferrero, a música nasceu a partir de reflexões pessoais sobre relações interpessoais e da necessidade de parar de se anular emocionalmente.
“‘Cuida’ foi muito pessoal. Eu comecei a me colocar em primeiro plano. Isso foi difícil. A música fala de relações próximas, mas também tóxicas. E de entender que você precisa se cuidar antes de cuidar dos outros. Foi uma libertação.”
O cantor também revela que a faixa acabou provocando forte impacto emocional durante o processo criativo.
“Todos nós nos emocionamos quando acabou. Foi a música mais profunda do álbum.”
ASTROLOGIA, ESPIRITUALIDADE E HERANÇA FAMILIAR
A presença de astrologia, numerologia e espiritualidade em “SE7E” aparece de maneira profundamente pessoal e distante de qualquer construção artificial de imagem. Para Di Ferrero, esses elementos fazem parte de sua vida desde a infância.
“Isso vem muito forte em mim desde mais novo. Astrologia, numerologia, espiritualidade… tudo isso vem da minha família. Minha mãe, meu pai, meu avô, minhas tias.”
A relação com a mãe, astróloga, influenciou diretamente a maneira como o artista passou a observar ciclos, momentos e processos pessoais ao longo da construção do álbum.
“Minha mãe é astróloga, então a gente conversa muito sobre vida, e isso acaba virando música.”
O cantor explica que símbolos espirituais e energéticos sempre estiveram presentes em sua trajetória artística, ainda que de formas mais sutis.
“Eu sempre usei símbolos nas músicas. Desde o primeiro lançamento, eu já tinha elementos assim.”
Ao comentar sobre o lançamento do álbum durante a lua nova, Di reforça que espiritualidade não substitui trabalho, mas funciona como alinhamento pessoal.
“A astrologia fala muito sobre o momento certo das coisas. Inclusive agora, dia 21, tem lua nova — que pra mim é o momento perfeito pra lançar o álbum, segundo os astros. Mas isso não substitui trabalho. Eu continuo indo atrás, correndo. Mas se eu posso alinhar com o que acredito, eu faço.”
Ele também admite que já não se preocupa com julgamentos externos relacionados ao tema.
“Tem gente que vai falar, vai zoar, dizer que é modinha… Mas isso eu já não ligo mais. Se é verdadeiro pra mim, já basta.”
“DEIXA SONHAR” E A SENSAÇÃO DE QUE O TEMPO PASSA RÁPIDO DEMAIS
Outra inédita importante dentro do universo emocional de “SE7E” é “Deixa Sonhar”, faixa que reflete inquietações sobre passagem do tempo, sonhos e a necessidade de continuar vivendo intensamente.
Ao comentar sobre a música, Di Ferrero explica que a urgência presente na canção não está ligada necessariamente à produtividade, mas à necessidade de ouvir mais a si mesmo.
“Não sei se é urgência de produzir. Mas é mais urgente ouvir. De me entender. Hoje tenho mais força pra dizer não. E isso eu não tinha antes.”
A faixa surge justamente desse desejo de continuar permitindo que sonhos existam, independentemente do tamanho ou da fase da vida.
“‘Deixa Sonhar’ vem desse momento de continuar sonhando, independentemente do tamanho do sonho. O que importa é: o que eu quero agora?”
“FIM DO MUNDO” TRANSFORMA CAOS EM METÁFORA EMOCIONAL
Já “Fim do Mundo” nasceu após uma experiência inesperada vivida durante uma sessão em Los Angeles. O episódio acabou servindo de gatilho para transformar tensão e caos em composição.
“A gente passou por uma situação absurda em outro país, totalmente inesperada. E no dia seguinte fomos pro estúdio. Eu falei: ‘não dá pra ignorar isso’. Então a música nasce disso. Do caos, mas também da escolha: vamos rir disso ou vamos travar?”
Apesar da temática intensa, Di destaca que a faixa também carrega energia de movimento e reação diante das dificuldades.
“A gente escolheu seguir em frente. E a música tem essa energia, mesmo falando de algo pesado.”
“MENOS PERFEIÇÃO, MAIS SENTIMENTO”
Musicalmente, “SE7E” também marca um afastamento de estruturas excessivamente polidas. O álbum abraça uma estética mais orgânica, atmosférica e emocional.
“Eu quis algo mais orgânico, mais humano. Menos perfeição, mais sentimento. Se tiver imperfeição, tudo bem. A ideia era capturar o momento real.”
Essa proposta se estende diretamente para a turnê do álbum, construída como expansão visual e emocional do universo apresentado nas músicas.
“A turnê é a extensão do álbum. A ideia é transportar esse universo emocional pro palco. Quem acompanha mais shows começa a entender melhor o conceito. E a abertura do show é como um portal. Você entra em outro universo.”
UM ÁLBUM SOBRE SENTIR EM TEMPOS DE EXCESSO
Ao final da conversa, Di Ferrero resume “SE7E” como um espaço de liberdade emocional em meio a um cenário onde sentimentos muitas vezes são tratados com superficialidade ou julgamento.
“Acho que muita gente vai se identificar com esse momento de vida. Tem uma geração que está sendo julgada por falar de sentimentos. E a música pode ser esse lugar de expressão. É ali que tudo acontece de verdade.”
Entre atmosferas azuis, símbolos astrológicos, vulnerabilidade emocional e amadurecimento pessoal, “SE7E” consolida uma das fases mais conscientes da trajetória de Di Ferrero. Um trabalho que não busca apenas apresentar músicas, mas construir significado, identidade e permanência.

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